
A política externa do presidente americano Donald Trump voltou a lançar o mundo em um ciclo de instabilidade permanente. Não se trata de episódios isolados, mas de um padrão de ação: intervenção, pressão econômica, ruptura diplomática e uso recorrente da força como instrumento de poder. Sob Trump, o imperialismo americano se apresenta de forma mais agressiva e menos disfarçada. O resultado é um cenário internacional tensionado, com impactos que atingem inclusive países que não participam diretamente desses conflitos.
A guerra contra a Venezuela é um dos casos mais evidentes. A intervenção militar norte-americana resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e na presença direta dos Estados Unidos no controle político e econômico do país. O discurso oficial fala em combate ao narcotráfico e defesa da democracia, mas na prática, há uma disputa explícita pelo petróleo venezuelano, uma das maiores reservas do mundo.
O mesmo padrão aparece em Cuba. Os Estados Unidos passaram a sufocar o abastecimento energético da ilha, agravando uma crise já marcada por falta de combustível, apagões e escassez de insumos básicos. Não há uma guerra formalmente declarada, mas há um mecanismo de asfixia econômica que produz efeitos concretos sobre a vida da população. A lógica é pressionar até impor uma mudança de regime. Isso também é forma de intervenção
No caso do Irã, a situação é ainda mais grave. O ataque dos Estados Unidos e de Israel é uma ação sórdida que mata civis, inclusive crianças, e reproduz uma política externa marcada pela escalada permanente de crises e pela desestabilização internacional. O mesmo padrão já se viu em Gaza, onde a ofensiva israelense produziu dezenas de milhares de mortes e aprofundou a deterioração regional. Trata-se de uma guerra sem base consistente no direito internacional, sustentada por argumentos frágeis de segurança, que amplia ainda mais a tensão global e agrava a desorganização de uma região central para o abastecimento energético mundial.
Essa escalada produz efeitos diretos sobre a economia internacional, e o primeiro deles é a crise do petróleo. Os conflitos no Oriente Médio, somados à instabilidade em países produtores como Venezuela e Irã, comprometem a oferta global de energia e pressionam os preços no mercado internacional, cenário que já vem sendo associado a alta do barril, risco inflacionário e aumento de custos logísticos em diferentes países. Como consequência, ampliam-se a inflação, o custo do transporte e a vulnerabilidade de economias fortemente dependentes de combustíveis fósseis.
A segunda consequência é o enfraquecimento das instituições multilaterais. A Organização das Nações Unidas perde capacidade de mediação quando grandes potências ignoram seus mecanismos e atuam unilateralmente. O resultado é um sistema internacional menos regulado e mais propenso a conflitos.
A terceira consequência é a disseminação da instabilidade. Quando uma potência atua sem limites claros, cria precedentes. Outros países passam a operar na mesma lógica. O risco de escalada aumenta.
Dizer que Trump “gera crises” é insuficiente. O que sua política externa revela é o uso deliberado da tensão, do conflito e da instabilidade como mecanismos de poder, com o objetivo de legitimar intervenções e reordenar interesses econômicos e geopolíticos em favor dos Estados Unidos. O resultado já está posto, com o Oriente Médio em guerra, a América Latina sob pressão crescente e o mercado internacional de energia submetido a sobressaltos permanentes. Não se trata apenas de uma mudança de estilo diplomático, mas de uma reconfiguração agressiva do poder global, sustentada por uma lógica de força que despreza limites jurídicos e impõe custos concretos à economia mundial e à vida de milhões de pessoas.
Por Carlos Zarattini