Tarcísio de Freitas: coragem para maquiar o caos

Coragem, nesse caso, não foi fazer o impossível. Foi insistir em um modelo que mascara problemas, naturaliza a violência e trata o Estado como balcão de negócios.

22 jan 2026, 11:18 Tempo de leitura: 3 minutos, 36 segundos
Tarcísio de Freitas: coragem para maquiar o caos



Tarcísio de Freitas gosta de se apresentar como o governador que teve “coragem para fazer o impossível”. O problema é que, quando se observa sua gestão, o que se evidencia é uma extraordinária capacidade de maquiar a realidade e transformar o caos em propaganda de eficiência. Vídeos bem produzidos anunciam conquistas que não existem e disposição para propagandear avanços inexistentes.

A realidade é que a gestão paulista se sustenta em uma narrativa de eficiência que não resiste aos fatos nem aos dados. Privatizações são vendidas como solução mágica, obras herdadas são tratadas como conquistas próprias e números são inflados para criar a ilusão de progresso. O caso da Sabesp é emblemático. Enquanto o governo celebra a privatização, a população enfrenta piora na qualidade do serviço, risco de crise hídrica e tarifas mais altas. O Estado abriu mão de planejamento e controle para atender interesses privados, apostando que uma boa campanha de comunicação seria suficiente para silenciar o debate público.

Na saúde, o discurso também não se sustenta. O governo fala em ampliação de leitos, mas os dados apontam redução da capacidade hospitalar e fechamento de unidades. Soma-se a isso o abandono e a falta de repasses a instituições estratégicas, como o Hospital de Clínicas da Unicamp, que passou praticamente todo o ano de 2025 sem receber recursos estaduais. Em dezembro, o governo enviou menos da metade do valor repassado no mesmo período de 2024.

Na educação, a lógica se repete. Projetos apresentados como inovação escondem precarização, desvalorização dos profissionais e decisões tomadas sem diálogo com a comunidade escolar. Basta lembrar a tentativa de impor material didático integralmente digital, ignorando desigualdades de acesso e impactos pedagógicos. A mobilização popular acabou derrubando essa ideia absurda.

É, porém, na segurança pública que o governo deixa sua marca mais grave. A letalidade policial aumentou de forma expressiva em São Paulo. Isso não é efeito colateral nem desvio pontual de conduta. Trata-se de uma política de Estado, estimulada desde o topo da gestão.

O então secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, nunca escondeu sua visão. Ao longo de sua trajetória, defendeu e naturalizou a lógica do “atira primeiro, pergunta depois”. Essa mentalidade foi incorporada às operações policiais, criando um ambiente de autorização tácita para o uso excessivo da força. O resultado aparece nos números: mais mortes, mais denúncias de abusos e uma escalada de violência que não se traduz em redução do crime.

Operações como Escudo e Verão escancararam esse modelo. Mortes em série, denúncias de execuções, manipulação de registros e uso político da violência. O governo aposta na retórica da guerra, como se matar mais fosse sinônimo de proteger melhor. Não é, essa estratégia já falhou no passado e segue falhando agora, aprofundando a desconfiança da população e corroendo o próprio papel do Estado. Basta observar a evolução dos indicadores. Os feminicídios cresceram de forma alarmante. Em 2025, registrou-se aumento de 10,1% em relação ao mesmo período de 2024, ao mesmo tempo em que o governo Tarcísio retirou milhões de reais das políticas de combate à violência contra as mulheres.

Ainda assim, Tarcísio fala em legado. Mas que legado é esse? Um Estado mínimo para os direitos sociais e máximo para os interesses privados. Um governo generoso com grandes empresas, por meio de renúncias fiscais bilionárias, e rigoroso com servidores, professores, profissionais da saúde e pesquisadores. Um projeto que transforma São Paulo em vitrine de uma política autoritária, travestida de gestão técnica, revelando a ausência de um projeto consistente para o estado.

Coragem, nesse caso, não foi fazer o impossível. Foi insistir em um modelo que mascara problemas, naturaliza a violência e trata o Estado como balcão de negócios. Isso, longe de ser virtude, representa um risco concreto para a democracia e para São Paulo.

Carlos Zarattini