Desemprego explosivo de Bolsonaro e Guedes agrava inadimplência

Aluguel é prioridade para famílias que não conseguirão pagar todas as despesas do mês. “Reforma” de Temer extinguiu vagas formais e aumentou precarização do trabalho A perda do emprego (43%), a impossibilidade de exercer atividade autônoma (22%) e a redução na carga horária de trabalho (20%), além dos gastos médicos (14%), foram as principais causas do endividamento […]

19 nov 2021, 14:31 Tempo de leitura: 6 minutos, 16 segundos
Desemprego explosivo de Bolsonaro e Guedes agrava inadimplência

Aluguel é prioridade para famílias que não conseguirão pagar todas as despesas do mês. “Reforma” de Temer extinguiu vagas formais e aumentou precarização do trabalho

Imagem: site PT.

perda do emprego (43%), a impossibilidade de exercer atividade autônoma (22%) e a redução na carga horária de trabalho (20%), além dos gastos médicos (14%), foram as principais causas do endividamento de 90,7% dos consumidores brasileiros em situação de inadimplência durante o período mais agudo da pandemia. Os impactos ainda perduram entre 80,5% deles.

As conclusões são de um estudo promovido pela multinacional alemã de serviços financeiros Multivalor. A pesquisa revela que quando falta dinheiro no orçamento, a prioridade de 31,5% dos entrevistados é pagar o aluguel. Na sequência, vêm as contas de consumo, como água e luz (26,4%), e a fatura do cartão de crédito (13,1%).

“O cartão de crédito é importante, por ser usado como complemento do orçamento das famílias. Mas, em uma situação de falta de dinheiro, garantir a moradia e as condições básicas relacionadas ao morar, como água e luz, vêm primeiro”, disse à Folha de São Paulo Phelipe Alvarez, vice-presidente da Intervalor.

Quando questionados sobre as situações inesperadas que bagunçaram o orçamento, os consumidores voltaram a apontar a perda de emprego na família (situação de 25%), a ajuda financeira a um familiar ou amigo (20%), os gastos médicos (19%), a manutenção do veículo (18%) e o conserto emergencial da casa (11%).

O executivo observou que só 24,5% da população possui convênio médico, e parte desse grupo o tem como benefício da empresa onde trabalha. “Ou seja, o desemprego traz consigo também a vulnerabilidade em relação às despesas relacionadas à saúde.”

“Os impactos financeiros negativos da pandemia não ficaram restritos à parcela da população com menor escolaridade”, ressaltou ainda Alvarez. O objetivo da pesquisa, explicou, foi entender os motivos que levaram ao descontrole financeiro.

A maior parte dos entrevistados (60%) tem entre 30 e 49 anos, ensino médio completo (29%) ou graduação completa (27%), são empregados (36%) ou trabalham por conta própria, incluindo empresários (37%). Uma fatia de 18% estava desempregada.

A quinta edição do ‘Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas no Brasil’, divulgado no fim de outubro pelo Serasa, revela que há 62,21 milhões de inadimplentes no país. Embora seja a quantidade mais baixa desde abril, quando houve o pico recente, cresce o valor das dívidas: em setembro, somava R$ 245,3 bilhões (alta de 0,34%).

Sem emprego, sem renda e sem perspectiva de melhora

A “reforma trabalhista” do usurpador Michel Temer lançou as condições para o atual cenário de terra arrasada, com desemprego, precarização do trabalho, queda da renda e endividamento crescente das famílias. Ao invés de criar dois milhões de vagas em dois anos, como prometido, o resultado foi o oposto.

“Assistimos a um aumento nada significativo (de desempregados) em relação ao que tinha sido apresentado como números possíveis de novas vagas. E testemunhamos a precarização dos postos de trabalho formais e o aumento do número de trabalhadores informais”, constata Alessandra Benedito, professora da Fundação Getúlio Vargas.

Doutora e Mestre em Direito Político e Econômico, ela atacou a criação da modalidade de trabalho intermitente, que não dá segurança jurídica aos trabalhadores. Criticou ainda a regra da negociação direta entre empregados e empregadores, ao mesmo tempo em que foi extinta a obrigatoriedade da contribuição sindical.

Quatro anos após a extinção de mais de 130 itens da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) por Temer, o trimestre encerrado em agosto de 2021 fechou com taxa de desocupação de 13,2%, 1,6 ponto percentual a mais que os 11,8% do último trimestre de 2017, quando entrou em vigor a Lei nº 13.467. O número de desempregados saltou de 12,3 milhões para 13,7 milhões no período.

Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também revelam que a promessa de redução da informalidade foi outra a não se concretizar.

A taxa cresceu de 40,5% da população ocupada em 2017 para 41,1% em 2021, o que representa 37,1 milhões de trabalhadores. Sintoma de que a informalidade avança sobre a extinção de postos de trabalho formais.

No trimestre móvel encerrado em agosto, o contingente de trabalhadores por conta própria chegou a 25,409 milhões de pessoas, o maior da série histórica. Uma alta de 4,3% (mais 1,0 milhão de pessoas) frente ao trimestre móvel anterior, encerrado em maio, e de 18,1% (3,9 milhões de pessoas) na comparação anual.

O número de empregados no setor privado sem carteira (10,8 milhões) cresceu 10,1% comparado ao trimestre móvel anterior. Em um ano, o contingente subiu 23,3% ou 2 milhões de pessoas, maiores variações da série, em termos percentuais e absolutos.

Já o número de trabalhadores domésticos (5,578 milhões), setor com mais informalidade, cresceu 9,9% em um trimestre e 21,2% em um ano. Nos dois casos, variações recordes. Quase 75% desses trabalhadores não têm registro em carteira.

“Parte significativa da recuperação da ocupação em 2021 deve-se ao avanço da informalidade. Em um ano a população ocupada total expandiu em 8,5 milhões de pessoas, sendo que desse contingente 6,0 milhões eram trabalhadores informais”, explica a coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, Adriana Beringuy.

“Uma maior informalidade significa trabalhadores com rendimentos mais voláteis, que não sabem muito bem o que esperar no fim do mês, no mês seguinte”, acrescenta Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). “Não há qualquer tipo de segurança, benefício ou seguridade. Então, temos um número muito grande de trabalhadores com uma incerteza no mercado de trabalho.”

No trimestre encerrado em agosto, o rendimento médio real dos trabalhadores recuou 4,3% frente ao trimestre encerrado em maio e 10,2% em relação ao mesmo trimestre de 2020, ficando em R$ 2.489. Foram as maiores quedas percentuais da série histórica, em ambas as comparações. A massa de rendimento real caiu 0,7% em um ano, para R$ 219 bilhões, mesmo com o ingresso de mais pessoas no contingente ocupado.

“A queda no rendimento está mostrando que, embora haja um maior número de pessoas ocupadas, nas diversas formas de inserção no mercado e em diversas atividades, essa população ocupada está sendo remunerada com rendimentos menores. A ocupação cresce, mas com rendimento do trabalho em queda”, arremata Beringuy.

O Boletim de Negociação do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revela que dois terços das campanhas salariais de categorias com data-base em agosto tiveram reajuste abaixo da inflação acumulada. O boletim aponta que 66,3% das negociações em agosto resultaram em perdas.

“Mais de 30 milhões de brasileiros não estão conseguindo renda suficiente para a sobrevivência”, alertou Simão Silber, professor da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, esse contingente representa 30% da População Economicamente Ativa (PEA) brasileira, de 105 milhões. “A não ser que tenha um milagre, o PIB não conseguirá crescer 3,5% nos próximos anos e isso significa que o desemprego vai continuar muito alto e a massa salarial não retoma o valor real de 2014”, finalizou.

Publicado no site pt.org.br