A dor de 600 mil famílias ganha voz na CPI da Covid

“Nós merecíamos um pedido de desculpas da maior autoridade do país”, observou. “Não é questão politica, se é de um partido ou de outro, nós estamos falando de vidas. A nossa dor não é “mimimi”, nós não somos palhaços. É real”, bradou.

18 out 2021, 18:23 Tempo de leitura: 3 minutos, 49 segundos
A dor de 600 mil famílias ganha voz na CPI da Covid
Foto: Agência Senado

A dor das famílias de mais de 600 mil brasileiros que perderam a vida por causa da Covid-19 ganhou voz nesta segunda-feira (18) na CPI. Os senadores ouviram o depoimento de sobreviventes e de parentes das vítimas em uma sessão repleta de indignação e sofrimento. Compareceram à oitiva a enfermeira Mayra Pires Lima, de Manaus (AM), Katia Shirlene Castilhos dos Santos, que perdeu parentes para a doença, a viúva Rosane Brandão, Antonio Carlos Costa, da ONG Rio de Paz, Marco Antonio, outro sobrevivente, a órfã de 19 anos Giovanna da Silva e Arquivaldo Bites Leão Leite, que perdeu seis parentes e sofre sequelas da doença. Durante o depoimento, a ONG estendeu 600 lenços brancos na frente do Congresso em homenagem às vítimas.

Desta vez, o comportamento desumano de Jair Bolsonaro durante a tragédia sanitária foi exposto pela ótica das famílias enlutadas. Os depoentes condenaram o negacionismo de Bolsonaro e seus aliados e cobraram justiça para honrar a memória das vítimas. Estranhamente, a sessão não contou com a presença ou uma palavra solidária de nenhum senador da base governista.

“Incompetência, descaso e irresponsabilidade fizeram com que o Brasil se tornasse o segundo país do mundo em números absolutos de mortos pela pandemia e o sétimo em números absolutos de mortos”, declarou Antonio Costa, da ONG Rio de Paz.

“Agora, uma pergunta: o que esperar daquele que ocupa o mais alto posto da República num cenário assustador e angustiante como esse, no qual tantos doaram suas vidas para que o pior não acontecesse? O que vimos foi a antítese de tudo o que se esperava de um Presidente da República”, criticou Antonio Costa.

A órfã Giovanna da Silva, de 19 anos, perdeu os pais para a doença e agora tornou-se responsável pela guarda de irmã mais nova, de apenas 10 anos. “Eu, meus pais e minha irmã éramos muito unidos”, contou Silva. “Quando meus pais faleceram, a gente perdeu as pessoas que a gente mais amava. Eu vi que precisava da minha irmã e ela precisava de mim, eu me apoiava nela e ela se apoiava em mim. A partir dali, vi que eu não poderia ficar mais sem ela”, disse. O testemunho da jovem emocionou os senadores. O intérprete de libras também foi às lágrimas e precisou ser substituído.

Parente cobra de Bolsonaro pedido de desculpas 

O taxista Antonio da Silva ficou conhecido em todo o país em abril de 2020, quando enfrentou um grupo de bolsonaristas na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. O grupo derrubava as cruzes que foram colocadas em um ato simbólico para homenagear os mortos da pandemia quando foi interpelado por Antonio.

Chocado com a falta de humanidade dos bolsonaristas, o taxista, que perdeu o filho de 25 anos e a irmã para a doença, recolocou as cruzes na areia. “Naquele dia, eles começaram a me agredir não pelas palavras, porque me chamaram de comunista, petista, etc. Quando descobriram que era apenas um pai que estava triste pelo seu filho, foi um constrangimento geral”, comentou o motorista.

“Nós merecíamos um pedido de desculpas da maior autoridade do país”, observou.  “Não é questão politica, se é de um partido ou de outro, nós estamos falando de vidas. A nossa dor não é “mimimi”, nós não somos palhaços. É real”, bradou.

Corpos empilhados

“Quando a gente vê um presidente da República imitando uma pessoa com falta de ar, isso para nós é muito doloroso… Se ele tivesse ideia do mal que ele faz para a nação, além de todo o mal que ele fez, ele não faria isso”, declarou Katia dos Santos, em um dos mais forte relatos da sessão. Ela perdeu pai e mãe e narrou que a irmã precisou procurar pelo cadáver do pai no necrotério, tamanho era o volume de corpos empilhados.

“Naquele dia que meu pai faleceu chegou a quase 4 mil mortos. Foi o pico da segunda onda da pandemia. A minha irmã teve que ir na funerária, com o carro da funerária, e infelizmente ela passou por todos esses problemas. Porque, quando ela chegou lá no necrotério, não estavam encontrando o corpo do meu pai”, contou Santos.

Da Redação

Matéria publicada originalmente no ste Partido dos Trabalhadores e replicada neste canal